
No processo de esquecimento de alguém significativo tens sempre recaídas. Sempre. Quando realmente alguém te marca, a sério, quando sentias que aquela relação era para o resto da tua vida, quando fizeste planos de envelhecer ao lado de alguém que era realmente especial, a sua memória torna-se mais forte em alguns momentos. Queres virar a página, dar a volta por cima, esquecer-te das músicas, das memórias, dos planos que deitaste fora e, inicialmente até consegues, mas quando sentimentalmente alguém se envolve contigo e tu até sentes algum carinho por essa pessoa, sentes que estas a trair a memória daquele sentimento que um dia foi perfeito. O sentimento que tens ainda está tão dentro de ti (embora te pareça que não) que, quando menos esperas, ele surge novamente. E traz muita tristeza. Traz muita dor, muito sofrimento, e acima de tudo, muita saudade. Todos os teus esforços para seguir com a tua vida caem por terra, todos os obstáculos que superaste anteriormente, regressam á tua vida, desfazendo-te em pedaços de passado.
Continuas a amar? Ou simplesmente continuas a preferir acreditar na ilusão do que sentias era perfeito (mas não era) para não te voltares a desiludir? Continuas agarrada ao que tiveste, aos momentos, ao sabor do beijo, do corpo e do desejo que percorria a tua pele, sem te dares conta tudo isso volta a parecer tão real, tão vivo, que é como se ainda existisse…e por isso sentes que estas a trair algo recente quando já passaram três messes ou mais.. Quando a tua capacidade de sentir e de querer é posta à prova sentes muito medo de ti própria. Muito medo não conseguir voltar a sentir nada por ninguém. Medo de não voltar a amar nem conseguires voltar a entregar-te.
Queres o carinho, a doçura, a atenção…mas não te queres envolver com ninguém, simplesmente não és capaz…O medo, a insegurança, a tristeza e a dor é tudo o que habita em ti, naquele momento. Senti que tudo o que tinha feito durante todas aquelas semanas tinha caído por terra e senti-me uma pessoa horrível por isso. Senti que estava a trair o meu passado, mas senti-o como se fosse há uns meses atrás. Naquele dia percebi, finalmente, que ainda não te esqueci (por muito que parecesse), que não estás longe da minha vida e que os nossos sonhos ainda não foram completamente apagados da minha existência. Senti que falhei, principalmente comigo mesma, ao deixar o passado entrar novamente na minha vida, mesmo que tenha sido pela porta do inconsciente.
O ódio não resolve nada, tentar odiar-te não adianta, chorar ao “ouvir-nos” não adianta, ver as “nossas” fotos não adianta, revolver as “nossas” memórias não adianta. Viver no passado, muito menos adianta. O passado tem que ficar, de uma vez por todas, no lugar dele. De uma vez por todas, para bem da minha sanidade mental.
De facto, não é preciso odiar para esquecer, nem sequer é preciso esquecer. Basta aprender a deixar as memórias no seu lugar, lembrando-as como algo doce e eterno e não como algo que se quer de volta. Porque não vai ser igual, tu não vais ser igual, ele não vai ser igual, nada vai ser igual. Aquilo que sonhas naquele momento é apenas o desejo de te voltares a sentir tão bem quanto te sentiste naqueles momentos, o que não quer dizer, necessariamente, que eles têm que voltar a acontecer. O passado tem que ficar no seu compartimento e quando as memórias saírem, deves vivê-las, sim, mas como isso mesmo, pedaços do que já viveste e foste e não como pedaços do que queres voltar a ser e a viver. Só isso.
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